Elvis continua vivo em cada esquina

Quem imaginaria que um cachorro fedido, aputrecido, abandonado por seu mal dono numa zoonose fosse fazer tanta falta? Em 2008 eles aceitavam o abandono. Hoje, nem todas zoonoses fazem isso.

Quando chegamos na zoonose de Vila Velha, numa segunda-feira pela manhã, uma carrocinha já estava cheia de cachorr@s. O que tinha escolhido na sexta-feira anterior, estava dentro. Levaram para o Hospital das Clinicas. Dizem que não iam matá-los. Pra quem sabe ler, um pingo é letra. Então nos restou ainda uns vinte cães para escolher.

Adotamos um casal que rapidamente produziriam outro. Qual nome dariamos para eles? Sabíamos que um novo nome pega bem, faz o animal esquecer os mal tratos recebidos do mal dono anterior. Poderia ser o Mascara. Eu e Patrícia decidimos que cada um daria o nome para o sexo oposto. Ela escolheu Elvis Presley para o macho e eu Emma Goldman para a fêmea. Parece que eles se conheceram no carro, meio que rosnando um para o outro. Mas logo seriam bons amigos. Claro, um sempre rosnando pro outro, principalmente ao lado da ração, como um bom cão.

A Emma tava magra, mas melhor. O Elvis tava magro e cheio de feridas, com pus. Sabia que poderia curá-lo. Ainda estava construindo a casa onde hoje moro, junto com a cervejaria D-roj Plezuro. Os entulhos e cimento dificultavam o tratamento. Depois de usar permanganato e outros remédios de farmácia por uns 4 meses, decidi fazer um tratamento intensivo com própolis e mel, via oral, e própolis num algodão, diretamente nas feridas. Como já tinha pouco cimento, foram 15 dias, três vezes ao dia, para curá-lo definitivamente. A parte mais difícil era o saco. Mas ele parecia hipocondríaco. Gostava do tratamento. E claro, do carinho.

Naquela época, mesmo machucado, gostava de brincar com sua maior arma de ataque: a mordida. Tambem nunca pensei que, as vezes, uma mordida pudesse ser demonstração de carinho. Ele sabia morder. Patrícia sabe bem disso. Era só pra lembrar que tinha dentes e uma mandíbula forte. Se quisesse, até arrancava pedaço. Mas mordia sempre de leve. Até os estranhos não mordia forte.

Depois de castrá-lo na zoonose de Vitória, teve sequelas que o levaram a internação por uns dias. Ele não podia cruzar que saia muito sangue, ficando anêmico. Aprendemos que só uma vez não fazia mal. Então, era só esperar o cio começar, deixar ele relaxar, e depois isolá-lo para não ficar anêmico.

O que nos deixa feliz é saber que ele teve outra chance, que nem todos tiveram.
Mesmo tendo um quintal, ainda acho que os animais deveriam viver soltos. Caçando e procurando seu próprio alimento. Mesmo que seja os restos dos humanos.

Adeus para aquele pequeno garoto, mas Elvis continua vivo em cada esquina.
Rene